coisas pequenas



As pessoas ficam tristes por idealizar demais. Planejar muito, criar expectativas. Tiram conclusões precipitadas e acabam se decepcionando. Como se o futuro fosse previsível. Isso desnorteia um pouco, faz as pessoas viverem um mundo ilusório – mas sedutor. O problema é que elas passam a não viver o mundo atual, as coisas pequenas que acontecem ao seu redor, em tempo presente. Por conta disso, passam a não perceber a felicidade nessas coisas. Por mais pequenas que sejam, essas felicidades ganham mais importância com o mérito da simplicidade.

Ser sensível para interpretar uma conversa com um amigo verdadeiro como algo enriquecedor, capaz de provocar mudanças positivas no modo como você conduz sua personalidade, talhando os erros, ou simplesmente dividindo um pensamento íntimo, engraçado, é, sim, saber encontrar a felicidade em coisas pequenas. Ao seu redor. Disponíveis com uma facilidade que poucos aproveitam.

Observar a coincidência rotineira do horário que um beija-flor vai até o seu jardim, cultivado com tanto carinho – com a intenção de criar-se uma relação, mesmo que pequena, homem + natureza – e atribuir a essa coincidência uma felicidade momentânea, que deve ser aproveitada naquele momento, é, também, saber encontrar a felicidade em coisas pequenas.

Valorizar as coisas daquele dia, daquele momento, aproveitá-las sob o risco de que podem não acontecer novamente é essencial para uma constatação plena de que a vida foi vivida, aproveitada, partilhada. E a partilha é o que faz as outras pessoas despertarem para as pequenas felicidades da vida. Indicar, falar que isso existe, produzir essa felicidade, o que seja. Tudo para que outras pessoas aprendam a fazer o mesmo. É por isso que escritores, pintores, músicos, advogados, diretores de filme, poetas - e todos os outros humanos dotados de coração bom - escrevem, pintam, compõem, defendem, passam a mensagem e emocionam: para provocar felicidade.



NÔMADE E AMIGO COLIBRI

UM BEIJA-FLOR DE PLUMAS MULTICORES

VISITA MEU JARDIM TODA MANHÃ,

E COM SOFREGUIDÃO SORVE DAS FLORES

O SEU NÉCTAR, QUE BUSCA COM AFÃ.

VOEJA QUAL MINÚSCULO TITÃ

ALADO, IMPULSIONADO POR MOTORES.

E EM SUA ESTRUTURA QUASE ANÃ,

NÃO TEME SEUS AÉREOS PREDADORES.

NAS ASAS SE SUSTÉM COM MAESTRIA

DE ACROBATA AUDACIOSO, ADMIRÁVEL,

ENQUANTO, EM PLENO VOO, SE DELICIA.

ESTE NÔMADE E BELO COLIBRI

É PARA MIM VISITA GRATA E AMÁVEL

QUE TERÁ, SEMPRE, BOA ACOLHIDA, AQUI.

SEBASTIÃO AIRES, meu avô.

EM 23.06.2010

a pior das distâncias


A distância me entristece. Não a distância imposta, como uma viagem longa, uma morte ou a incapacidade de poder tocar alguém. Mas a falta de proximidade. Aquela distância que só é capaz de nos fazer perceber o quanto estivemos longe (apesar de estarmos perto), quando a distância se faz em sua total realidade. É quando temos um novo e incompreensível tipo de saudade: saudade de um convívio que não tivemos. Saudade de diálogos que não existiram.
Conhecer um pouco mais sobre uma pessoa só depois de perceber que há, literalmente, um oceano entre ambos é, a princípio, frustrante. Porém podemos tornar empolgante com um simples gesto. Basta reconhecer que havia essa distância e tocar neste assunto. Basta escrever um texto para ser lido no exato dia do aniversário. E basta tomar uma iniciativa que um novo horizonte se abre. As oportunidades de aproximação serão mais factíveis, menos constrangedoras, curiosas e imprescindíveis. Arrependo-me de ter escrito este texto caso alguém me convença de que há motivos para distanciar-se de alguém quando não há cizânias. Contentar-se com o distanciamento, apesar das aproximações serem tentadoras, necessárias, saudáveis e capazes de promover novas experiências é uma atitude fraca e arrependível. Conhecer a personalidade das pessoas exige dedicação e paciência. Mas quando isso se realiza, ficamos orgulhosos do nós mesmos, com uma sensação de absoluta certeza de que fizemos a coisa certa.

quase 1 ano de África

Cheguei aqui inocente, ingênuo. Achando que era mais um superior ocidental que iria fazer seu papel na África. E quando falava em África, eu sempre me referia – principalmente para mim mesmo – como um “país“ pobre, com baixa expectativa de vida, primitivo, cheio de tragédias. Mas esse era só um lado da África que eu conhecia. O lado que sempre me foi mostrado ou contado. Mudei (e mudem!) de opinião. A curiosidade pelo desconhecido me fez conhecer um novo mundo, uma nova história e uma nova perspectiva para o – então – fascinante, lindo, empolgante, surpreendente e envolvente continente africano.

As mudanças foram provocadas por histórias contadas e experiências vividas. E agradeço a Deus por ter me dado essa curiosidade de estar constantemente me colocando à disposição de conhecer um outro lado das histórias, mesmo que inconscientemente.

Cheguei aqui (e ainda continuo) com 22 anos. Mas nem de longe me acho parecido com o cara que desceu do avião no dia, se não me engano, 6 de julho de 2009. Daqui a alguns dias completarei os 23 e, consequentemente, 1 ano de África. O ano mais feliz, mais marcante e mais esclarecedor da minha vida, até agora.

Deem chance para conhecer outros lados das histórias que vocês já estão cansados de ouvir. A bondade, as boas ações, as mudanças representativas da vida acontecem quando você se dá essa oportunidade. Promover a mudança em si é um ato que exige um pouco de egoísmo em alguns aspectos – como ter que abandonar uma família e um conforto antes desvalorizado, por exemplo – mas que acaba por se revelar um egoísmo sadio, compreensível e suportável. Hoje assisti a um dos discursos mais lindos que já escutei na vida, e que fala exatamente sobre tudo isso que escrevi. Assistam também:


PS.: Ativem a legenda em português clicando em "view subtitle".


um post pra maria, rui e luana.

“Ta tudo bem.este nr do serginho,tem roaming.foi divertidissimo,hoje ja vamos pra o recinto.o lodge é no fim do mundo,mas é optimo.a lua? Um bjinh maria“

Esta mensagem marcou meus últimos dias. Ela foi enviada do meu celular pela Maria - uma das grandes amizades que construí aqui em Maputo. Namorada de uma outra grande amizade: o Zé Maia.

A história é triste, mas tem final feliz porque a vida é pra ser feliz. O pai da Maria – um dos maiores amigos que a natureza já teve – foi um dos maiores caçadores da África (conheçam a história dele clicando aqui).

E esta mensagem que transcrevi de forma literal no começo deste post foi a última coisa que a Maria disse pra ele. Infelizmente, Rui Quadros deixou saudade pra sempre no último domingo – 30 de maio.

Ontem recebemos alguns amigos lá em casa. A Maria pegou meu celular e pediu para ver as mensagens enviadas. Meu celular é a coisa mais distante possível de um iPhone. E essa humildade de tecnologia só me dá a possibilidade de ver as últimas 15 mensagens enviadas. Por sorte, destino, coincidência, ou qualquer outra coisa que você queira chamar, a 15º mensagem era exatamente a que Maria havia enviado para seu pai. Ou seja, se eu enviasse mais uma, a dela sumiria.

Mais uma vez por sorte, destino, coincidência ou qualquer outra coisa que você queira chamar, o pai de Maria havia aprendido a ler mensagens no seu celular há alguns dias. E o final feliz disso tudo é que ele recebeu o “bjinh“ que sua filha mandou.