Barba, cabelo e bigode ralos

Estava num quiosque com 2 colegas de trabalho comendo pastel de soja e desentalando a garganta com suco de açaí quando, de rabo de olho, percebeu um homem se aproximando do seu colega mais gordo.


- Bora, me passa os celulares e a carteira senão eu dou um balaço. – Disse o homem com uma voz baixa para evitar alardes.


Durante aqueles milésimos de segundo que o cérebro busca no registro de contexto o que aquelas palavras significam, teve a certeza que seria um colega do colega fazendo aquelas brincadeiras de descontrair começo de conversa, já que a cidade era tranquila. Tomou mais um gole do suco e a segunda hipótese surgiu para aborrecê-lo: “Será que é um meliante?”. Olhou para trás e viu um homem magro, de barbicha e bigode ralinhos, braços cruzados e demonstrando uma masculinidade falsa que só um homem armado poderia oferecer.


Dali em diante tinha poucos segundos para estabelecer nexo entre os pensamentos. Colocou a mão no bolso, constatou que havia dois, mas só entregou um dos celulares ao franzino. Pensou em entregar a carteira, mas logo veio o “Porra, segunda via de cartão e documentos, além dos 200 reais que tirei ontem?”. Ficou na dúvida entre a carteira e um possível disparo. Quando começou a duvidar muito de que aquele disparo iria acontecer, olhou para a mão esquerda e percebeu os 10 reais plantados entre o indicador e o polegar. Soltou um alívio mental demonstrado por uma expiração longa em conjunto com a entrega do dinheiro.


Enquanto isso o colega não gordo tentava, discretamente - e contando com a ajuda do colega gordo (que servia de escudo visual) -, colocar o celular de última geração na cueca. Obteve sucesso. Em contrapartida, desembolsou 50 reais para o desnutrido.


Chegou a vez do gordo entregar seus pertences. Ofertou 2 celulares. Achou pouco e quis seguir o exemplo dos outros colegas. Pegou 5 reais, olhou para o marginal, olhou para o dinheiro e estendeu o braço num gesto solidário.


- Só tem isso, boy? - Perguntou o descarnado.

- Só.

- Oxe, pode ficar.

B-beijar


Há 3 meses na tristeza enclausurada da solidão.

Sem a menor esperança de que meus lábios a beijaria e sem noção de que iria ser tão bom, tão emocionante.

O momento onírico dos dois protagonistas aconteceu numa mesa de bar, pra variar - é lá que a paquera e o envolvimento acontecem.

Na cenografia constava a deselegância do recinto que proporcionava um romantismo ao encontro que só quem está na abstinência entende do que estou falando.

A sinuca serviu de desculpa pra um contato mais descontraído. A trilha saía de uma caixinha despretensiosa e foi nesse contexto barzinhável que aconteceu o primeiro (de muitos) beijo.

Olhos fechados, lábios salivados, mãos no seu devido lugar e, subitamente, voltei a sentir o inesquecível gosto de uma cerveja bem gelada.

Maputo - Setembro de 2010

Que animal tu qué sê?


Até então, uma das perguntas mais filosofais que poderiam me fazer.
Não por eu não cogitar uma resposta. Mas é que o mundo animal é tão vasto que ficava difícil escolher um assim, de supetão.

Durante muito tempo, minha resposta era falcão.

Primeiro, pela sua inquestionável capacidade de voar. Segundo, pela exímia habilidade em capturar uma presa.
Depois comecei a me decepcionar com o falcão quando soube que ele não possuía o hábito de construir seu próprio ninho.
Pensei "pássaro impaciente, sem tempo ou preguiçoso". Depois pensei melhor: pássaro que se contenta com um buraco no penhasco.
Pois bem, não contei conversa com o falcão; assim que descobri a história da falta do ninho, mudei pra seu primo mais próximo, o gavião.

Passei um bom tempo satisfeito com ele. E a resposta vinha com convicção.
- Segim, que animal tu qué sê?
- Gavião!


Mas aí, de tanto responder "Gavião!", bateu em mim uma vontade.
De quê? De investigar um defeito desse falconífero.
E foi no meio dessa investigação que descobri algo que me fez desistir das aves de rapina.
Fiquei sabendo que os gaviões - assim como as águias - matam suas presas com a impiedosa força de suas garras.

(Abro um parenteses aqui para dizer que não sou contra o estrangulamento. Apenas acho que ele deve permanecer no campo animalesco-irracional)

Mas, voltando às aves:
Balanceando qualidades e imperfeições, acabei chegando ao João de Barro.



Um passarinho gente boa, como o próprio nome já diz, e que, ainda por cima, não estrangula ninguém.
Só que o João de Barro é tão obssecado e perfeccionista em construir seu ninho, que acaba abdicando de um dos principais privilégios dum pássaro:
voar (de preferência, voar alto).

Foi aí que comecei a imaginar se não estava sendo exigente demais com minha resposta.
Mas a verdade é que eu estava tão deslumbrado com a habilidade de voar, que acabei esquecendo de uma ave mais gente boa que o João de Barro: o pinguim.

Concordem comigo:
Eles são uns coitados.
Moram no frio da gota serena, andam de uma maneira desastrosamente engraçada, são todos fisicamente parecidos, e o pior de tudo: não conseguem voar.
Mas as dificuldades da vida também ensinam, nem que seja na marra.
Foi por isso que decidi minha resposta.

Modéstia de lado, uma resposta precisa.
Existe uma espécie de pinguim que, apesar de não voar, de não construir ninhos e de ser um dos poucos animais a suportar o desumano inverno da Antártida,
é capaz, através singularmente do seu canto, de reconhecer sua fêmea e seu filhote em meio a uma multidão de outros pinguins semelhantemente idênticos.
Portanto e finalmente, se eu fosse um animal, depois de muito pensar, seria um pinguim imperador.



#Dica - Escutem o álbum que Émilie Simon fez para o documentário 'A Marcha dos Pinguins'.


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