Estava num quiosque com 2 colegas de trabalho comendo pastel de soja e desentalando a garganta com suco de açaí quando, de rabo de olho, percebeu um homem se aproximando do seu colega mais gordo.
- Bora, me passa os celulares e a carteira senão eu dou um balaço. – Disse o homem com uma voz baixa para evitar alardes.
Durante aqueles milésimos de segundo que o cérebro busca no registro de contexto o que aquelas palavras significam, teve a certeza que seria um colega do colega fazendo aquelas brincadeiras de descontrair começo de conversa, já que a cidade era tranquila. Tomou mais um gole do suco e a segunda hipótese surgiu para aborrecê-lo: “Será que é um meliante?”. Olhou para trás e viu um homem magro, de barbicha e bigode ralinhos, braços cruzados e demonstrando uma masculinidade falsa que só um homem armado poderia oferecer.
Dali em diante tinha poucos segundos para estabelecer nexo entre os pensamentos. Colocou a mão no bolso, constatou que havia dois, mas só entregou um dos celulares ao franzino. Pensou em entregar a carteira, mas logo veio o “Porra, segunda via de cartão e documentos, além dos 200 reais que tirei ontem?”. Ficou na dúvida entre a carteira e um possível disparo. Quando começou a duvidar muito de que aquele disparo iria acontecer, olhou para a mão esquerda e percebeu os 10 reais plantados entre o indicador e o polegar. Soltou um alívio mental demonstrado por uma expiração longa em conjunto com a entrega do dinheiro.
Enquanto isso o colega não gordo tentava, discretamente - e contando com a ajuda do colega gordo (que servia de escudo visual) -, colocar o celular de última geração na cueca. Obteve sucesso. Em contrapartida, desembolsou 50 reais para o desnutrido.
Chegou a vez do gordo entregar seus pertences. Ofertou 2 celulares. Achou pouco e quis seguir o exemplo dos outros colegas. Pegou 5 reais, olhou para o marginal, olhou para o dinheiro e estendeu o braço num gesto solidário.
- Só tem isso, boy? - Perguntou o descarnado.
- Só.
- Oxe, pode ficar.













