Distância
Primeiro que a distância machuca demais, e isso é uma certeza que, tanto quem tá de fora (os amados que ficam), como quem tá de dentro (o viajante), têm. É fato que não precisaria estar presente neste texto, mas para que a narrativa fique completa, são citados: a distância provoca saudade insaciável, pungente, latente, frenética, desorientadora, esmagadora.
A distância também provoca impotência, incapacidade, sensação de inutilidade e de quanto o ser humano é frágil aos sentimentos quando coloca um objetivo na cabeça. Por mais que, obviamente, seja um objetivo sem certezas de ser alcançado. Porém que graça teria se essa certeza houvesse? Não seria objetivo.
A distância também aflora opiniões próprias – equivocadas e certeiras. Tiramos conclusões precipitadas sobre o comportamento de uma namorada, sobre as decisões dela em resistir a uma vinda. Julgando-a fraca, medrosa, comedida e, pasmem, incapaz. A distância faz com que pensemos em coisas absurdas e tristes a respeito de alguém que, digo-vos com uma convicção serena: alguém que amo.
Alguém que, paradoxalmente, entrou em minha vida para que tudo isso aconteça. Inclusive meu distanciamento quilômetros e quilômetros oceano Atlântico a dentro.
A distância também faz nosso cérebro perceber que não existe namoro à distância. Primeiro que não podemos categorizar “namoro à distância“ – depois explico o porquê. Segundo, que namoro significa tato. Sexo, beijo, abraço, mão no cabelo, barulhinho de cachorrinho no ouvido do outro. Namoro significa filme embaixo do lençol e sentar num banco onde, apesar de haver espaço para os dois, preferimos ficar com a perna em cima da perna do outro. Namoro é isso: tato. E só chegamos a essa conclusão depois de muito amor e, claro, de distância.
Como prometido, tentarei explicar por que não podemos categorizar “namoro à distância“ e chamar todos os relacionamentos onde um cônjuge fica e o outro carimba o passaporte de namoro à distância. Existe, sim, namoro à distância com certeza de volta – aquele presente nos intercâmbios, cursos no exterior e afins – onde o viajante pode sentar no banquinho e dizer: fica tranquila, em 6 meses ou 1 ano, estarei de volta.
Contudo, e quando a distância – e a permanência nela – são incertas? E quando não podemos sentar no banquinho, colocar a perna dela em cima da minha, olhar nos olhos grandes e parecidos com os da Juliana Paes e dizer: ei, voltarei daqui a 6 meses ou 1 ano. E aí, meu amigo, como é que fica? Vai tentar trazer ela? Ótimo. Conselho? Saiba que as pessoas são diferentes e possuem, cada uma, seu tempo. Por conta disso é que você não pode julgá-la fraca, medrosa, comedida e, maior erro de todos, incapaz. Ela é só mais uma que possui uma impressão digital, uma arcada dentária, uma voz e uma opinião diferente. Opinião única e que precisa ser, acima de tudo, respeitada. As pessoas têm seus próprios tempos. E a distância, felizmente, provoca amadurecimento. Provoca um texto longo para alguns, curto para outros, verdadeiro para muitos, sincero e franco para todos, exatamente 15 minutos após uma das decisões mais sensatas, emocionantes e racionais da minha vida. Uma decisão que, paradoxalmente ao significado superficial dela, é uma grande prova de amor.
assista a the cove, boston legal e six feet under
E eu entendi o porquê. É uma obsessão prazerosa: se existe algo que me deixa extremamente aflito e inquieto, é quando assisto, leio ou escuto algo muito bom. Mas um muito bom bastante questionável, já que se trata da minha opinião. Como sei bem, particular.
O problema é que eu considero minha opinião o auge da razão – o que faz de mim um dono da verdade muito ingênuo. E a aflição tem uma explicação: eu não consigo parar quieto, ficar em silêncio e dormir tranquilo enquanto uma pessoa não assiste, escuta ou lê aquilo que eu tento, de uma maneira exageradamente irritante, indicar.
Meu objetivo é encontrar as melhores palavras para formar uma descrição empolgante, envolvente, surpreendente, que cause curiosidade e, enfim, que cause o consumo da minha indicação. Para minha realização ser orgasmática, a pessoa precisa gostar e se empolgar tanto quanto eu – gostar mais que eu são casos raros, nunca vistos, mas que não duvido da existência.
E é assim que eu estou consumindo livros, filmes, séries, textos e músicas no momento. Pode ser que eu me canse de tentar difundir meus gostos pessoais. Mas até lá, à exceção de poucos casos, a empolgação vai continuar a mesma.
Apartheid 2.0

Este último fim de semana viajamos para Phalaborwa – cidade da África do Sul. Uma viagem longa, mas recompensadora. Não vou focar a narrativa deste texto relatando como levaram minha carteira sem eu perceber, nem elogiando as amizades que fizemos por lá, muito menos exaltando o excelente lodge que nos acomodou, porque isso um amigo meu já fez. Basta você ir neste link:
http://momentosdelavidacotidiana.blogspot.com/2010/03/viagem-phalaborwa.html
- Onde estão os brancos? Eles não se misturam com os negros? Estão proibidos de entrar aqui? Que houve?
- Mas, por quê? E se, por um acaso, o negro entrasse na boate e ficasse em um canto, sentado?
Ele repetiu o gesto que fez da primeira vez - o mesmo gesto que fazemos quando queremos demonstrar um murro.
Fiquei surpreso com aquilo. Inocência minha ou não, a verdade é que o racismo é muito latente e explícito em Phalaborwa.
No entanto, a parte que fiquei tão surpreso quanto a descrição da intolerância na boate, foram as situações como a abertura de uma conta corrente em um banco. Para fazer isso, você precisa pagar uma taxa, caso seja branco; ou não pagar nada, caso seja negro. O mesmo vale para matricular seu filho em uma escola pública. Segundo “meu informante“ (que estuda em uma escola pública), para estudar lá, o branco precisa pagar uma taxa mensal, enquanto o negro não (e talvez isso seja um dos motivos para que, na sala dele, haja 5 brancos e 35 negros).
Saí de Phalaborwa com uma vontade enorme de voltar pelas amizades que fiz com o pessoal do lodge, que nos recebeu não como clientes, e sim como amigos. Mas fiquei triste em saber que, por conta do racismo, muitas pessoas deixam de conhecer outras pessoas excepcionais. Sejam elas brancas ou negras.