Que animal tu qué sê?

Até então, uma das perguntas mais filosofais que poderiam me fazer.
Não por eu não cogitar uma resposta. Mas é que o mundo animal é tão vasto que ficava difícil escolher um assim, de supetão.
Durante muito tempo, minha resposta era falcão.

Primeiro, pela sua inquestionável capacidade de voar. Segundo, pela exímia habilidade em capturar uma presa.
Depois comecei a me decepcionar com o falcão quando soube que ele não possuía o hábito de construir seu próprio ninho.
Pensei "pássaro impaciente, sem tempo ou preguiçoso". Depois pensei melhor: pássaro que se contenta com um buraco no penhasco.
Pois bem, não contei conversa com o falcão; assim que descobri a história da falta do ninho, mudei pra seu primo mais próximo, o gavião.
Passei um bom tempo satisfeito com ele. E a resposta vinha com convicção.
- Segim, que animal tu qué sê?
- Gavião!

Mas aí, de tanto responder "Gavião!", bateu em mim uma vontade.
De quê? De investigar um defeito desse falconífero.
E foi no meio dessa investigação que descobri algo que me fez desistir das aves de rapina.
Fiquei sabendo que os gaviões - assim como as águias - matam suas presas com a impiedosa força de suas garras.
(Abro um parenteses aqui para dizer que não sou contra o estrangulamento. Apenas acho que ele deve permanecer no campo animalesco-irracional)
Mas, voltando às aves:
Balanceando qualidades e imperfeições, acabei chegando ao João de Barro.
Um passarinho gente boa, como o próprio nome já diz, e que, ainda por cima, não estrangula ninguém.
Só que o João de Barro é tão obssecado e perfeccionista em construir seu ninho, que acaba abdicando de um dos principais privilégios dum pássaro:
voar (de preferência, voar alto).
Foi aí que comecei a imaginar se não estava sendo exigente demais com minha resposta.
Mas a verdade é que eu estava tão deslumbrado com a habilidade de voar, que acabei esquecendo de uma ave mais gente boa que o João de Barro: o pinguim.
Concordem comigo:
Eles são uns coitados.
Moram no frio da gota serena, andam de uma maneira desastrosamente engraçada, são todos fisicamente parecidos, e o pior de tudo: não conseguem voar.
Mas as dificuldades da vida também ensinam, nem que seja na marra.
Foi por isso que decidi minha resposta.
Modéstia de lado, uma resposta precisa.
Existe uma espécie de pinguim que, apesar de não voar, de não construir ninhos e de ser um dos poucos animais a suportar o desumano inverno da Antártida,
é capaz, através singularmente do seu canto, de reconhecer sua fêmea e seu filhote em meio a uma multidão de outros pinguins semelhantemente idênticos.
Portanto e finalmente, se eu fosse um animal, depois de muito pensar, seria um pinguim imperador.

#Dica - Escutem o álbum que Émilie Simon fez para o documentário 'A Marcha dos Pinguins'.
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