Quero ir pra Cannes fazer turismo.

Enjoei de propaganda, pronto, tá escrito. Passei do estágio de pensar sobre esse enjoo (e de confessar para os meus amigos mais confidentes), para o estágio de escrever sobre esse enjoo (e dividir com quem ainda não é meu confidente). Eu vivia publicidade o tempo todo. Trabalho com isso, usava meu tempo livre pra isso, meu assunto preferido nas mesas de bar era isso, meus amigos eram por causa disso e eu até cagava com algum livro ou revista sobre isso. Só que agora eu enjoei. Mas calma, senhora propaganda, toda ex-paixão merece respeito, consideração e, quem vai negar, uns amassos de vez em quando. Eu disse que enjoei de propaganda, eu não disse que abandonei a propaganda. Lá vou eu e minha necessidade de deixar tudo explicado, para que não hajam interpretações desdenhosas e distorcidas:
enjoei de ficar acessando sites de propaganda;
enjoei de perguntar “ei, visse aquela campanha?“ (sabendo que a resposta provavelmente seria “não“ porque eu, como excelente e dedicado publicitário, estou por dentro das últimas-melhores-campanhas criadas no eixo EUA/Argentina/Londres/Brasil/Pessoal do Oriente – que estavam fazendo (pelo menos na época em que eu não tinha enjoado de propaganda) uma excelente propaganda;
enjoei de “pensar em“ ou “pensar pra Cannes“;
enjoei dos twitters dos publicitários – que insistem em dar RT nos twittes de outros publicitários, cuja mensagem eu já tinha lido, pois seguia ambos;
enjoei de ficar até tarde, mas isso não é nenhum mérito, era falta de noção;
e enjoei de “vamos fazer pra pasta“.
Agora quer ler um desabafo? Eu gostei do resultado, taí. Digam o que quiserem, pensem o que quiserem, deixem de me contratar porque querem, mas eu gostei disso, oh?!
As consequências foram inéditas pra mim: conheci novos amigos, de novas áreas; aprendi sobre música; vi seriados; assisti a mais filmes; li mais livros sobre tudo, exceto publicidade; viajei, conheci novos lugares e substituí os livros e as revistas de publicidade na hora de cagar por um violão, apesar do meu banheiro ser apertado.
Não vou usar meu emagrecimento pra reforçar as qualidades de enjoar de publicidade, já que eu encaro isso como força de vontade minha. Portanto, aproveitando: parabéns pra mim nesse ponto.

Estou feliz com o resultado. Enjoar de propaganda abriu minha cabeça e, na minha opinião, melhorou o meu compromisso com a publicidade. A vontade antiga de usar a publicidade com intuito primordial de me promover através de anúncios criativos, campanhas geniais e ações que tiravam expressões manjadas do enjoativo mundo da publicidade, como “do grande caralho“, foi substituída pela vontade atual de promover uma marca e, essencialmente, melhorar a vida do consumidor – que, no caso atual do mercado em que atuo é composto 70% por analfabetos e pessoas que vivem com menos de 100 dólares por mês (portanto, necessitam demais de um publicitário que pense neles, não num festival).

A conclusão final, que coincide com a conclusão deste texto, é a mais sincera possível. Não tenho pretensão de abandonar a publicidade, de forma alguma: tenho um grande compromisso de retribuir tudo que ela me proporcionou. Mas tenho, sim, a pretensão de olhar menos para propaganda e mais para a vida. Eu ouvia isso o tempo todo e achava que estava dando conta dos dois. Eu acho que esse tempo que olhei muito para propaganda me ajudou a entender como se faz propaganda. Agora eu preciso começar a transformar o que eu vivo naquilo que eu enjoei.

6 comentários:

Gustavo Pozzobon disse...

Serginho, quem olha de fora tem a certeza de que você sempre deu conta dos dois, pela segurança e alegria que transmite, até em dizer que gosta de Vitor e Léo. Mas só você pra saber do teor e tamanho do dilema que pode ter vivido, e acho que nem chega a ser tão dramático. Provavelmente agora está procurando um equilíbrio maior, baseado nas coisas boas que estão ao seu redor, prontas pra você abraçar. E é isso mesmo: essas coisas que a gente descobre e trazem mudanças são sempre explosivas e motivadoras.
Vai viver, bixo, vai ser tudo do caralho! E é muito massa essa clareza profissional que você tá sentindo, que tem a ver com o contexto escroto (parecido com o do Brasil, na verdade...) do país em que você vive.
Abraço.

Unknown disse...

Meu amigo, leia Oliviero Toscani, A publicidade é um cadaver que nos faz sorrir.... li no 5 período e enjoei da publicidade depois desse livro hehe mas vale a pena a leitura!

abração

Anônimo disse...

É isso aí filhão: mudando, crescendo, evoluindo, amadurecendo, descobrindo, mudando, mas sempre orgulhando painho e mainha. bjs

painho/mainha disse...

Diante de seus desafios, dilemas, saudades dos amigos, familiares e do amor intrínseco pela sua profissão, nada mais sensato do que voce saber que escolheu o caminho certo para trilhar sua vida.
Nunca esqueça que para tudo isso se concretizar de verdade, precisamos ter amor ao que fazemos, com ética, responsabilidade e, principalmente, com ATITUDES.

Beijão de teu painho, mainha e bodes que te amam muito.

Antonio Pascoa disse...

Oi Sérgio, descobri seu blog procurando pela DDB Maputo, a grande premiada do festival desse ano. Parabéns pelos seus post. E manda um abraço ao pessoal da DDB, aqui de Angola.

António Páscoa da Executive Center Angola

Sergio Aires disse...

Grande Antonio, obrigado pela visita e pelos elogios. Um grande abraço para o pessoal daí também e, claro, parabéns pelo desempenho da Executive no AMEP.