300 metros

Hoje eu posso dizer: tive muita sorte de nascer em uma família que pode me dar, no mínimo, condições de viver. Rapaz, acho que todo mundo deveria vir na África e conhecer a parte negra – com trocadilho. Estávamos voltando pra agência – eu, Lenin, Victor e Zeca – quando os meninos falaram para o motorista:

- Narciso, passa ali naquele lugar que a gente viu uma mulher vendendo água por 1 metical o copo.
(Depois eles me contaram que era um único copo para todos que queriam beber aquela água mais suja que a que sai do seu chuveiro)

O lugar era exatamente a materialização do seu primeiro pensamento quando a palavra África aparece na sua frente.
Quase que eu desisto de colocar este texto aqui no blog porque eu só pensava: não vou conseguir descrever aquele lugar. Pra piorar, sou péssimo em descrições. Mas foi o seguinte, depois de uns 300 metros da rua onde entraríamos para a agência, o cenário mudou bruscamente.
Antes era uma rua asfaltada, onde eu via posto de gasolina com loja de conveniência, farmácia, lojas, prédios, casas, árvores, carros estacionados e outros elementos de uma civilização normal.
A partir daqueles 300 metros, eu só vi uma única rua onde só era possível passar 2 carros. Um indo, outro voltando.
A “calçada“, que não era calçada, estava LOTADA de objetos para serem vendidos. Tinha de tudo: de pão a sutiã usado. Roupas empoeiradas, frutas provavelmente podres, bonés, tênis usados, DVDs piratas e tudo de menos original e 0 Km que você possa imaginar.

Isso já era um cenário horrível. A 25 de março é uma Daslu perto daquilo. Mas o pior estava por trás desse comércio. Não eram casas, nem barracas, nem apartamentos. Não, nem de longe. Nada de muros, argamassa, cimento, postes, portas, tijolos. Nada. A cor predominante era o marrom. Umas ruelas de barro que foram feitas para pessoas abaixo dos 80 quilos passarem. Um gordo ali tava lascado, ficava entalado.

Andamos durante um quilômetro nessa rua. Na volta, Zeca me falou um negócio que eu fiquei pensando:

- Serginho, é pra essas pessoas que você vai ter que criar. Esse é teu público, cara.

E é verdade. O lugar que nós estamos é um mundo de conto de fadas. Prédios, casas, postos de gasolina, árvores, BMWs, Mercedes, Audis, Land Rovers, redes de fast-food. Essa parte de Maputo que vivemos e trabalhamos é um privilégio de poucos. O povão, a classe média, a maioria dos africanos mora ali: a 300 metros do lugar onde trabalho.

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